Irão, Israel, Estados Unidos : quando sobreviver ao império já se torna uma vitória
Por vezes, na história das nações, a vitória não pertence àquele que golpeia com mais força, mas sim àquele que se recusa a cair.
Esta é uma das grandes lições que a geopolítica moderna nos ensina as guerras contemporâneas já não se vencem apenas no campo de batalha, no ruído dos mísseis, nem na potência mecânica dos bombardeiros. Elas vencem-se também e muitas vezes sobretudo na capacidade de um Estado preservar a sua existência política, manter de pé o seu aparelho institucional e sobreviver tempo suficiente para transformar a sua resistência numa vitória narrativa.

Sob esse prisma, apesar das destruições sofridas, apesar dos ataques combinados do exército israelita e do poderio militar americano, apesar das perdas humanas e dos danos estratégicos registados no seu território, o Irão pode hoje sustentar, sem exagero retórico, que sai politicamente fortalecido deste confronto.
Tal afirmação poderá chocar os espíritos mais superficiais, aqueles que ainda confundem poder militar com sucesso estratégico. Porque, à primeira vista, as imagens parecem contar outra história : infraestruturas atingidas, instalações bombardeadas, cidades em tensão, população ferida. Porém, a geopolítica nunca se lê à superfície dos acontecimentos. Ela exige uma leitura fria, distante, desprovida da emoção imediata.
E quando observamos os factos com elevação, uma realidade impõe-se:
Israel e os Estados Unidos demonstraram a sua força; o Irão, por sua vez, demonstrou a sua resiliência.
Ora, nas relações de força internacionais, a resiliência perante um adversário superior constitui, por vezes, uma vitória mais importante do que um sucesso tático.
Uma guerra que deveria humilhar, mas que não conseguiu quebrar
Quando Washington e Telavive entraram nesta confrontação, o seu objetivo implícito não era simplesmente bombardear o Irão por bombardear. Uma campanha militar só faz sentido se visar um resultado político enfraquecer duradouramente o adversário, constrangê-lo à submissão, forçá-lo a ceder, ou até provocar o seu colapso estratégico.

Mas a questão fundamental é hoje a seguinte:
O Irão submeteu-se?
Não.
O regime iraniano colapsou?
Não.
Teerão capitulou?
Não.

Pior ainda para as potências ocidentais após semanas de ameaças e escalada, Washington aceitou um cessar-fogo temporário de duas semanas com Teerão, suspendendo os ataques num quadro de acordo condicional.
E é precisamente aí que reside o centro do debate.
Porque quando uma superpotência ameaça a aniquilação total de um adversário, para depois recuar subitamente e aceitar uma trégua antes do colapso desse mesmo adversário, isso significa geralmente uma coisa: a guerra não produziu a capitulação esperada.
O cessar-fogo como confissão implícita
Nas relações internacionais, um cessar-fogo nunca é neutro. Ele é frequentemente a tradução diplomática de um cálculo estratégico.

Ou uma parte considera ter alcançado todos os seus objetivos;
ou compreende que continuar a escalada se tornou mais arriscado do que vantajoso.

E numerosos observadores interpretam esta trégua como sinal de que Washington procura retomar o controlo político de uma guerra que se tornou demasiado onerosa, demasiado imprevisível ou demasiado sensível no plano político interno.
Mesmo nos Estados Unidos, diversas vozes políticas elevaram as suas críticas, e alguns chegaram a mencionar mecanismos constitucionais contra Donald Trump devido à sua gestão do dossier iraniano.
Ou seja:
a guerra externa começa a produzir abalos internos.
E quando um presidente conduz uma campanha militar enquanto vê a sua própria estabilidade política ser questionada, isso enfraquece automaticamente a sua postura internacional.
A grande vitória iraniana: transformar a sobrevivência em símbolo
Aquilo que Teerão poderá ter perdido em infraestruturas, poderá tê-lo ganho em prestígio simbólico.
O Irão pode agora apresentar-se diante do seu povo, diante dos seus aliados regionais e diante de uma parte significativa do Sul Global com uma mensagem simples, mas poderosa:
“Enfrentámos duas das mais poderosas máquinas militares do mundo, e continuamos de pé.”
Numa região onde a perceção conta, por vezes, tanto quanto o poder real, esta narrativa tem um peso imenso.
Porque aos olhos de muitos povos, sobreviver ao assalto conjunto de Washington e Telavive sem ver o regime ruir, sem ocupação estrangeira e sem capitulação imposta equivale a demonstrar que a força ocidental não é absoluta.
E é precisamente isso que transforma o sofrimento iraniano em capital político.
A História oferece inúmeros exemplos semelhantes: o Vietname não destruiu os Estados Unidos, mas forçou-os a reconhecer os limites do seu poder. O Afeganistão nunca superou militarmente as grandes potências que o invadiram, mas desgastou-as politicamente. O Hezbollah, em 2006, não conquistou Israel, mas transformou a sua sobrevivência numa vitória psicológica.
Hoje, o Irão inscreve-se nessa mesma lógica estratégica.
Quando o Ocidente vence militarmente, mas perde a narrativa
O drama das potências modernas reside frequentemente aí dominam tecnologicamente, mas falham em transformar essa dominação numa vitória política duradoura.
As bombas destroem edifícios; não destroem necessariamente a vontade política de um povo.

Os mísseis podem neutralizar alvos; não neutralizam automaticamente uma ideologia, uma doutrina ou uma determinação nacional.
E talvez essa seja a maior lição desta guerra:
o Ocidente ainda pode esmagar militarmente os seus adversários; mas demonstra cada vez mais dificuldade em quebrá-los politicamente.
Conclusão
Seria intelectualmente desonesto afirmar que o Irão sai ileso desta guerra. Não. O Irão sofreu. Pagou o preço do sangue, da destruição e da provação nacional.
Mas seria igualmente ingénuo acreditar que um país que sofre perdeu necessariamente.
Porque, em geopolítica, a verdadeira questão nunca é:
“Quem atacou mais?”
A verdadeira questão é:
“Quem impôs a sua vontade ao outro?”
E enquanto o Irão permanecer de pé, enquanto o seu regime resistir, enquanto as suas instituições funcionarem, enquanto os seus inimigos forem obrigados a negociar em vez de impor uma rendição, então Teerão pode sustentar que, apesar das ruínas, apesar das feridas, apesar das chamas…
não foi derrotado.
E por vezes, na história dos povos,
não ser derrotado por um inimigo mais forte constitui já a maior das vitórias.

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