Yaoundé — Um diferendo entre o grupo britânico Globeleq e a administração fiscal dos Camarões está a provocar novas perturbações no sistema elétrico do país, com reflexos diretos no abastecimento de energia às regiões mais populosas e economicamente ativas.Desde 1 de junho, cerca de 304 megawatts de capacidade de produção foram retirados do Rede Interligada Sul (RIS), principal sistema elétrico camaronês, após o bloqueio das contas bancárias da Globeleq no âmbito de um processo de cobrança fiscal.
A situação resultou em cortes e restrições no fornecimento de eletricidade que afetam aproximadamente 40% dos consumidores das regiões do Litoral e do Oeste dos Camarões.
As capacidades retiradas correspondem às centrais de Kribi e Dibamba, exploradas pelas subsidiárias da Globeleq, Kribi Power Development Company (KPDC) e Dibamba Power Development Company (DPDC).
Juntas, as duas infraestruturas representam mais de 20% da capacidade disponível na Rede Interligada Sul, considerada estratégica para o abastecimento de cidades como Douala, Yaoundé e da zona industrial e portuária de Kribi.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Água e Energia dos Camarões, a retirada das capacidades de produção ocorreu após o congelamento das contas do grupo por parte da administração fiscal, devido ao alegado incumprimento de obrigações tributárias.
O Governo reconhece, contudo, que a situação ocorre num contexto de dificuldades financeiras persistentes no setor elétrico, marcado por atrasos de pagamentos ao produtor de energia.
Especialistas e observadores do setor consideram que a crise expõe fragilidades estruturais do sistema energético camaronês. Para além da disputa fiscal, o episódio evidencia problemas recorrentes de liquidez e de sustentabilidade financeira na cadeia de produção e distribuição de eletricidade, fatores que têm provocado sucessivas tensões entre operadores privados e entidades públicas.
A Globeleq é um dos principais produtores independentes de energia em África e opera nos Camarões desde 2014, através das centrais térmicas de Kribi, com capacidade de 216 MW, e de Dibamba, com capacidade de 88 MW. Nos últimos anos, o grupo tem mantido negociações relacionadas com a eventual transferência dos seus ativos no país para operadores locais.
As autoridades camaronesas afirmam estar a desenvolver contactos entre os ministérios envolvidos e as partes interessadas para encontrar uma solução que permita o regresso das capacidades retiradas à rede e a estabilização do fornecimento de energia no país.
